Os terminais portuários de petróleo dilapidados da Venezuela estão impondo um limite de fato à exportação da produção de petróleo bruto do país, que está em franca recuperação. Segundo dados, fontes e documentos do setor marítimo, os navios-tanque precisam esperar até 30 dias para carregar devido à infraestrutura obsoleta, cortes de energia e problemas de qualidade.
Os atrasos estão criando obstáculos a um plano dos EUA para impulsionar rapidamente as exportações de petróleo da Venezuela, após um acordo emblemático com empresas comerciais globais. A disputa por infraestrutura provavelmente se intensificará, visto que muitos parceiros da estatal de energia PDVSA se preparam para comercializar sua parcela de produção de forma independente, sob novos termos contratuais.
A última vez que os clientes de petróleo da Venezuela tiveram que lidar com atrasos tão longos foi durante o bloqueio naval imposto pelos EUA ao país sul-americano no final do ano passado, parte de uma estratégia que culminou com a prisão do então presidente Nicolás Maduro em 3 de janeiro. Desde então, a presidente interina Delcy Rodríguez tem se mantido fiel ao plano de Washington para reativar as exportações de petróleo.
Mas, nos últimos meses, a PDVSA e seus parceiros não conseguiram ultrapassar 1,25 milhão de barris por dia de exportações, mesmo com o aumento da produção de petróleo bruto, a redução dos estoques e a alta demanda global, conforme mostraram os dados de monitoramento de embarcações.
Quando a produção atingiu o pico de mais de 3 milhões de barris por dia, há mais de duas décadas, os terminais do país eram capazes de movimentar mais de 2,5 milhões de barris por dia em exportações, com navios entrando e saindo das águas venezuelanas em menos de uma semana.
Os problemas no carregamento estão gerando disputas sobre sobrestadia, qualidade do petróleo bruto e contaminação dos navios, de acordo com documentos marítimos, quatro fontes e dados de monitoramento de embarcações.
"A velocidade de transferência de petróleo bruto dos tanques para os navios é incrivelmente lenta, o que obriga os petroleiros a ocuparem os cais por mais tempo do que os horários de carregamento previstos. E se um navio chega para descarregar importações, demora ainda mais devido à falta de capacidade de armazenamento de combustível", disse uma fonte da PDVSA.
O Ministério do Petróleo da Venezuela e a PDVSA não responderam aos pedidos de comentários.
Os atrasos são visíveis nas dezenas de petroleiros que aguardam cargas de petróleo nas ancoragens do país, particularmente perto do porto de Jose, na costa nordeste da Venezuela, que movimenta cerca de 70% das exportações totais do país.
Relatórios de remessas da empresa, vistos pela Reuters, mostraram interrupções neste ano devido a mau funcionamento de equipamentos, problemas de qualidade e quedas de energia durante as operações de carga e descarga em Jose.
Mesmo empresas em posições mais privilegiadas para usar docas após décadas de parceria com a PDVSA, como a gigante petrolífera americana Chevron (CVX.N), estão buscando soluções para melhorar o carregamento, incluindo a solicitação de acesso a portos até então dedicados ao transporte marítimo doméstico, disseram fontes.
A Chevron não respondeu ao pedido de comentário.
O acordo de exportação de petróleo da Venezuela com os EUA, prorrogado diversas vezes, permitiu que empresas como a Vitol e a Trafigura enviassem mais de 140 milhões de barris de petróleo bruto e combustível este ano, com a maior parte das cargas destinadas aos EUA e outras retornando a mercados que não recebiam petróleo venezuelano há anos, como a Europa e a Índia, à medida que as sanções americanas são atenuadas.
Mas, enquanto Washington pressiona por um plano de reconstrução energética de US$ 100 bilhões na Venezuela, focado principalmente no aumento da produção de petróleo bruto, projetos de infraestrutura e refino – incluindo aqueles destinados à recuperação de terminais e refinarias – não estão sendo priorizados.
Autoridades americanas e venezuelanas elogiaram a recuperação das exportações de petróleo em duas conferências realizadas em Houston esta semana e reconheceram os desafios de infraestrutura que, segundo elas, podem ser resolvidos com novos investimentos.
"Estamos hoje em uma fase de recuperação, mas a infraestrutura existe", disse o vice-presidente da PDVSA, Jovanny Martinez, em uma das conferências. "Há deficiências e a confiabilidade precisa melhorar."
ENTRE FERRUGEM E VAZAMENTOS
O congestionamento no porto de José e na área de ancoragem vizinha de Pozuelos é, em parte, anterior ao atual boom das exportações. Os portos petrolíferos da Venezuela estão repletos de relíquias dos anos em que o país estava sob severas sanções dos EUA, como petroleiros que entraram na lista negra, chegaram discretamente e não conseguiram sair.
Uma delas, ostentando uma falsa bandeira da Guiana, está atracada no porto de Guaraguao da PDVSA em Puerto La Cruz, com o casco e o convés visivelmente enferrujados mesmo à distância. Anteriormente conhecida como Syrma e utilizada para transportar petróleo para Cuba antes de ser renomeada Consul, ela permanece ali há dois anos, abrigando-se da repressão dos EUA contra frotas clandestinas, que resultou em apreensões e prisões, conforme mostram dados de navegação e bancos de dados marítimos.
Assim como muitas outras embarcações, o navio ocupa espaço de atracação em um local bastante disputado, mesmo com empresas estrangeiras buscando reativar terminais ociosos para expandir as exportações de petróleo bruto. Em meados de agosto, apenas duas das sete docas de Guaraguao estavam em plena operação, segundo um funcionário do terminal.
A competição pela capacidade portuária levou muitos clientes a recorrerem a terminais e áreas de transferência de navio para navio, onde vazamentos de óleo que mancham os cascos de seus petroleiros são frequentes, causando atrasos e custos adicionais, de acordo com as fontes e documentos.
Entretanto, a PDVSA está sendo cada vez mais cobrada em milhares de dólares por sobrestadia — uma taxa adicional por atraso aplicada a cada dia que um navio-tanque permanece aguardando além do horário de carregamento designado — que ela concordou em pagar apenas em petróleo bruto.
A empresa estatal está exigindo que os novos clientes paguem pelas cargas no ato da entrega, sem qualquer forma de crédito, o que complica a emissão de faturas caso esses clientes reivindiquem sobretaxas ou descontos relacionados à qualidade, acrescentaram as fontes.
A migração de dezenas de contratos petrolíferos para novos termos aprovados numa ampla reforma energética que entrou em vigor no final de julho deverá agravar a disputa por infraestruturas.
Mas a PDVSA deixou claro, segundo as fontes, que manterá o controle de seus terminais, incluindo todo o planejamento de cargas, pelo menos por enquanto.
(Reuters)